Devaneios dos limites pseudocientíficos

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A verdade é que esse texto, no seu pensamento original, seria uma série de apontamentos sobre a acupuntura, iria entre outras coisas mostrar a validade do tratamento, a correlação com o efeito placebo e até expor ela como uma pseudociência. SIM, eu iria fazer isso. Porém, nas minhas reflexões diárias entre um café e um embalo na rede me perguntei: Quantas pessoas sabem o paralelo entre ciência e pseudociência? A própria tirinha que inicia esta postagem é capaz de deixar algumas pessoas envergonhadas confusas.

Dia desses, na verdade na última sexta durante uma conversa em mesa de bar, fui questionado, de forma um pouco pejorativa, por acreditar na ciência. Porém, rapidamente corrigir a pessoa, afirmando que eu não “acreditava” na ciência. SIM, um blogue de divulgação científica que não “acredita” em ciência? Como pode isso? De fato eu não “acredito” na teoria da evolução, tão pouco na teoria das tectônicas de tectônica placas ou outra qualquer teoria colocada por um cientista de forma tão livremente. Mas calma, deixe eu explicar melhor. O leitor um pouco mais experto pode ter notado as aspas. Elas, as aspas, servem para eu dizer aqui que há uma distinção entre acreditar e conhecer.

Por exemplo, a teoria da tectônica de placas, eu conheço parte dos estudos, eu li o que elas se propõem explicar, inclusive as implicações históricas no qual ela estava inseri dentre outras coisas. As investigações para busca de hidrocarbonetos, ou mesmo de fosseis, seriam demasiadamente complexas, sem um norte que a teoria de tectônicas de placas fornece. Em resumo, eu conheço os dados que corroboram o que era hipótese e hoje é uma teoria. O mesmo é valido para muitos outros conhecimentos científicos que vem sendo construídos ao longo dos anos. Portanto, acreditar, simplesmente acreditar, por um apelo autoritário, sem compreender a cadeia de fatos ou dados científicos, é muito mais factível de uma crença.

A crença pode ser considerada um apelo de uma verdade. É uma expressão de fé ou confiança que pode ser manifestada a favor de uma pessoa, uma ideia ou em uma entidade. Isso por si só é bem diferente de conhecer o que acontece no universo natural. De fato, as duas são bem distintas do ponto de vista epistemológico, mas sobre esses limites do conhecimento (epistemologia), deixarei para outro momento. O ponto é:

Até que ponto você defende algo por conhecer ou por crer? E o quanto você se sente confortável com isso?

Um dos maiores trunfos do conhecimento científico é ele ser relativo e sempre estar aberto a novos testes, de forma ultrapassar e avançar o conhecimento vigente. Mesmo que para alguns cientistas isso possa ser difícil, romper certos paradigmas científicos é fundamental, mas não é simples como possa parecer. Boa parte dos trabalhos dos cientistas é provar o tempo todo que ele está errado. Enquanto os outros, em uma análise mais minuciosa e coletivas também tentam provar que ele está errado. Esta tentativa infinita de ser testável e de se provar errada dificilmente acontece com muitas das crenças ou pseudociência pois elas dificilmente parecem abertas as mudanças, uma vez que se configuram com verdades ditas absolutas.

Dito isso, eu pergunto: vocês devem acreditar no que escrevo? Minha resposta é um enfático e maiúsculo NÃO! O fato é que inevitavelmente devemos verificar as coisas por nós mesmos e caso não seja possível, pelo menos questionar com perguntas objetivas a validade dessas suposições.

No entanto, saber o tipo de pergunta para uma afirmação quando não temos o profundo conhecimento sobre um determinado assunto é um tanto problemático. Porém, quando se trata de uma hipótese rasa com pouca fidelidade com os fatos, esse exercício é mais simples. Talvez aquele velho dito popular que mentira tem perna curta, seja uma excelente ponto de investigação. Esperar um pouco e ver como aquela afirmação se desenvolve com novas informações.

Carl Sagan, em seu livro clássico “O mundo assombrado pelos demônios” fala em um dos capítulos sobre um kit para detectar mentiras(ler o capítulo completo aqui). Neste kit havia um conjunto de instrumentos para o pensamento cético e meios para compreender as coisas de forma mais racional. Um dos pontos fundamentais desse kit é que a conclusão não tem que ser
de nosso agrado se estas partem de uma premissa factual e lógica. Alguns desses pontos são:

  • Sempre que possível deve haver uma confirmação independente dos “fatos;
  • Os argumentos apresentados por autoridades têm pouco peso — as autoridades cometeram erros no passado e voltarão a cometê-los no futuro.
  • Devemos quantificar. Se o que estiver sendo explicado é passível de meditação, de ser relacionado a alguma quantidade numérica, seremos muito mais capazes de descriminar entre as hipóteses concorrentes. O que é vago e qualitativo é suscetível de muitas explicações.
  • Devemos sempre perguntar se a hipótese pode ser, pelo menos em princípio, falseada. As proposições que não podem ser testadas ou falseadas não valem grande coisa. Considere-se a ideia grandiosa de que nosso universo e tudo o que nele existe é apenas uma partícula elementar – um elétron por exemplo – num cosmo muito maior. Mas, se nunca obtemos informações de fora de nosso universo, essa ideia não se torna impossível de ser refutada?
  • A navalha de Occam. Está excelente regra prática incita-nos, quando confrontados com duas hipóteses que explicam dados igualmente bem, a escolher a mais simples. (Fiz uma breve análise de E.T através usando este pensamento em Uma conversa sobre Ets)

Mas recentemente, Michael Shermer, renova as “preposições inicias” ou “testes” de Carl em 10 questionamentos.

  1. Até que ponto é fidedigna a fonte da alegação?
  2. Esta fonte faz frequentemente alegações análogas?
  3. As alegações foram verificadas por outra fonte?
  4. Como se ajusta essa alegação ao que sabemos sobre o funcionamento do mundo?
  5. Alguém tentou refutar a alegação, ou só foram procurados indícios que a suportem?
  6. A maior parte das provas aponta para a conclusão daquele que faz a alegação ou para outra?
  7. Quem faz a alegação emprega as regras de raciocínio e os instrumentos de investigação aceites, ou estes foram abandonados em favor de outros que levam à conclusão desejada?
  8. Quem faz a alegação dá uma explicação para o fenômeno observado ou nega apenas a explicação existente?
  9. Se quem faz a alegação apresenta uma explicação nova, esta explicação dá conta de tantos fenômenos quanto a explicação antiga?
  10. São as crenças e as inclinações de quem faz a alegação que levam às conclusões, ou vice-versa? Afinal somos humanos.

O que estas dez perguntas fazem é ajudar a questionar uma afirmação de forma construtiva. Assim é possível, ajudar a identificar uma afirmação obviamente falsa, ou pelo menos, negar uma crença se baseando nos dados e evidências que mostram o oposto. Claro que tudo isso requer um certo treinamento e muito mais do que pode parecer, uma mente aberta e flexível, sempre a pronto a reconsiderar as avaliações à medida que surjam provas que corroborem esta afirmação. Sem dúvida é isto que torna a ciência tão frustrante para muita gente e nem sempre é confortável conviver com isto, pois ela está atrás do que o universo realmente é não do que nos faz sentir bem sendo talvez a maior das criações da mente humana.

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Referencias e leituras

O MUNDO ASSOMBRADO PELOS DEMÔNIOS – A ciência vista como uma vela no escuro. Carl Sagan. capitulo: A arte refinada de detectar mentiras.

Baloney Detection, How to draw boudaries between science and pseudoscience. Part I. Scientific American, nov. 2001 .

More Baloney Detection,How to draw boudaries between science and pseudoscience. Part II. Scientific American, dec. 2001.