E o tal do efeito placebo??

Tempo de leitura : 9 min

Hipócrates sem dúvida é uma das figuras mais importantes da história, sendo considerado o pai da medicina ocidental. A ele é creditado como sendo a primeira pessoa a propor que as doenças eram causadas naturalmente e não por deuses. Algo transgressor para sua época. Hipócrates acreditava ainda que nossas forças naturais, forças internas, seriam capazes de nos curar, porém esta cura estaria ligada muito mais ao tempo do que ao tratamento, além disso, nossa saúde também dependia muito da nossa vontade de melhora. Curiosamente a essa  crença de Hipócrates temos um nome moderno e elegante: Efeito Placebo.

O efeito placebo é a principal reação de muito dos principais tratamentos alternativos tais como reiki, homeopatia, florais, iridologia acupuntura e et cetera. Mas o que diabos é o efeito placebo?

Pacientes que têm alguma doença e que são tratados apenas por meio da ingestão de um medicamento falso, contendo nada mais do que farinha e as vezes um pouco de açúcar, acabam se curando da doença, a uma taxa maior do que aqueles que não recebem tratamento algum. Para algumas doenças, como dor de cabeça crônica, esta taxa de cura pode chegar a 30% dos pacientes que tomaram o placebo.

As primeiras evidências do efeito placebo foram demonstradas por Ivan Petrovich Pavlov, em seus trabalhos com condicionamento de cães. Pavlov demonstrou que a secreção de ácido gástrico no estomago de cães podia ser condicionada, sendo desencadeada não somente pela presença de comida, mas também pela presença das pessoas que traziam a comida. Assim, por exemplo, os cães poderiam desencadear uma secreção gástrica mesmo apenas ao observar uma pessoa condicionada

Assim, Pavlov usando sons de apitos, conseguiu demonstrar uma resposta fisiológica direta. O trabalho de Pavlov foi extremamente importante pois demonstra que reações fisiológicas podem ser condicionadas. Esse é um dos princípios do placebo.

experimento

Após fazer soar um estímulo sonoro, aplica-se em um cão, uma injeção de acetilcolina. Em resposta à acetilcolina o cão tem hipotensão (queda da pressão arterial). Se depois de diversas combinações do som com a injeção, substituirmos a acetilcolina por adrenalina, o cão continuará a ter hipotensão. Deveria ter hipertensão (aumento da pressão arterial), portanto o condicionamento mudou completamente a resposta ao segundo agente.

A ação farmacológica da adrenalina foi anulada. Seria de se esperar que o cão, ao recebê-la, tivesse aumento da pressão arterial; mas como está recebendo aquela injeção temporalmente associada ao estímulo sonoro, que para ele é sinal de hipotensão, sua pressão continua a baixar. Curiosamente, injeções salinas foram usadas com sucesso para redução de dor em soldados durante a Segunda Guerra Mundial, quando faltou morfina.

Em 1974, o psicólogo Robert Ader (Universidade de Rochester, EUA) estava fazendo uma pesquisa corriqueira de condicionamento com ratos. Tratava-se de um estudo em que o rato aprendia a ter aversão ao gosto de uma solução com sacarina. No experimento, logo após os ratos beberem a gostosa solução eles recebia uma injeção de ciclofosfamida, que lhe provocava indisposição gastrointestinal.

No estudo comprovou-se um fato esperado de que os ratos que bebiam uma dose menor de solução doce recuperavam-se da aversão mais rapidamente (digamos em três dias) do que aqueles que na primeira sessão beberam mais solução de sacarina (e que demoravam digamos sete dias). No experimento ambos os ratos recebiam a mesma dose de ciclofosfamida. Então por que  demoravam tempos diferentes para se recuperar da aversão? Porque o cérebro dos ratos mal-estar estava associado à intensidade do gosto da sacarina, assim como nos experimentos pioneiro do russo Ivan Pavlov (1895) com o reflexo condicionado em cães.

No entanto, uma coisa estranha começou acontecer com os ratos de Ader: eles começaram a morrer numa taxa maior do que a esperada! Chamou seu colega imunologista Nicholas Cohen. El constatou que os ratos submetidos ao experimento estavam com seus sistemas imunes deprimidos, ficando assim mais suscetíveis às doenças usuais do laboratório. Sem que Ader soubesse, a droga que ele usava também é um imunodepressor. Porém, tal depressão normalmente não se prolongaria pelos quinze dias em que a administração de sacarina era mantida nos ratos. Ou seja, uma mera dose de ciclofosfamida não aumentaria muito a taxa de mortalidade dos ratos. O que estava acontecendo então?

Perceberam que o sistema imune dos ratos (através de seu cérebro) passou a associar o gosto da sacarina à depressão imunológica. Toda vez que o rato tomava a solução de sacarina, o sistema imune deprimia, e isso por um período de tempo bem maior do que o tempo em que a aversão psíquica se mantinha. Com este resultado obtido de maneira acidental, ocorreu uma pequena “revolução científica”.

Apesar da resistência de revistas importantes em publicar tais resultados, aos poucos outros cientistas começaram a repetir os experimentos, obtendo os mesmos resultados, e a área da “psiconeuroimunologia” (“neuroimunomodulação”) nasceria, suplantando o conhecimento anterior de que os sistemas neurológicos e imunológicos seriam basicamente independentes.

Esses estudos ajudaram por exemplo a dizer que efeito placebo seja psicológico, devido a um efeito real causado pela crença ou por uma ilusão subjetiva. Se eu acreditar que a pílula ajuda, ela vai ajudar. Ou a minha condição física não muda, mas eu sinto que ela mudou. Por exemplo, Irving Kirsch, um psicólogo da Universidade de Connecticut, acredita que a eficácia do Prozac e drogas similares pode ser atribuída quase que inteiramente ao efeito placebo.

Em um estudo publicado Kirsch & Sapirstein(1998)  foi analisado o efeito das mudanças na depressão para 2318 pacientes que tinham sido ministrado aleatoriamente a medicação antidepressiva ou placebo em 19 ensaios clínicos duplamente-cegos. Concluíram que a expectativa de melhora foram responsáveis por 75 por cento da eficácia das drogas.

“O fator crítico,” afirma Kirsch, “são nossas crenças a respeito do que irá acontecer conosco. Você não precisa confiar nas drogas para ver uma profunda transformação. Em um estudo anterior, Sapirstein analisou 39 estudos, feitos entre 1974 e 1995, de pacientes depressivos tratados com drogas, psicoterapia, ou uma combinação de ambos. Ele descobriu que 50 por cento do efeito das drogas se deve à resposta placebo.

CG5j_ZVUYAA3U1m

K. Beecher avaliou duas dúzias de estudos e calculou que aproximadamente um terço dos pacientes nos estudos melhorou devido ao efeito placebo ( The Powerful Placebo,1955). Outros estudos calculam que o efeito seja ainda maior do que afirmou Beecher. Por exemplo, estudos demonstraram que os placebos são eficazes em 50 a 60 por cento dos pacientes com determinadas condições, por exemplo, “dores, depressão, algumas indisposições cardíacas, úlceras gástricas e outras queixas estomacais” [The Placebo Prescreption] E tão eficazes como as novas drogas psicotrópicas parecem ser, no tratamento de vários distúrbios mentais. Alguns pesquisadores sustentam que não há evidências adequadas a partir de estudos que provem que as novas drogas sejam mais eficazes que os placebos (From Placebo to Panacea, 1997).

Assim, podemos afirmar que o placebo depende de três fatores básicos. Em primeiro lugar, estão o comportamento e a expectativa do paciente, relacionados a diversos mecanismos conscientes e inconscientes; em segundo lugar, a atitude médica, sua compenetração, o propósito e o ritual de prescrição; e em último lugar, deve ser considerada a droga em si, o tipo de administração – se invasiva ou não -, os custos, o local, entre outros. Exemplo desse último fator foi registrado em pacientes portadores de veias varicosas. Uma vez comparado o efeito do placebo usado em aplicação local com o ministrado por via oral, o resultado da pesquisa evidenciou estatisticamente um efeito melhor no grupo que usou placebo tópico.

As crenças e esperanças de uma pessoa sobre um tratamento, combinadas com sua sugestibilidade, podem ter um efeito bioquímico significativo. Sabemos que a experiências sensoriais e pensamentos podem afetar a neuroquímica, e que o sistema neuroquímico do corpo afeta e é afetado por outros sistemas bioquímicos, inclusive o hormonal e o imunológico. Assim, há provavelmente uma boa dose de verdade na afirmação de que a atitude esperançosa e as crenças de uma pessoa são muito importantes para o seu bem-estar físico e sua recuperação de lesões ou doença.

Um problema com o efeito placebo é que pode ser difícil de distinguir dos efeitos reais de um fármaco real, durante um estudo. Encontrar maneiras de distinguir entre o efeito placebo e o efeito do tratamento pode ajudar a melhorar o tratamento e reduzir o custo de testes de drogas. E mais de estudo também pode levar a maneiras de usar o poder do efeito placebo no tratamento da doença.

 

Gostou? Siga a página no Facebook também Unidades Imaginárias

Referencias e leituras

New York Time Magazine: The placebo precription. 25/04/1999

Uai:Experimento mostra que placebo pode reduzir ate 50 da dor. 01/09/2014

Morungaba Filosófico-Científica :Efeito Placebo

McLeod, S. A. (2013). Pavlov’s Dogs

Brazil Skepdic : Efeito Placebo

Café na bancada: Efeito placebo o melhor amigo das terapias alternativas . 14/01/2016

Beecher HK. THE POWERFUL PLACEBO.JAMA. 1955;159(17):1602-1606.

 Andrews, A.PLACEBO RESPONSE IN DEPRESSION: BANE OF RESEARCH, BOON TO THERAPY. 

 

Kirsch, Irving; Sapirstein, Guy Prevention. LISTENING TO PROZAC BUT HEARING PLACEBO: A META-ANALYSIS OF ANTIDEPRESSANT MEDICATION., Vol 1(2), Jun 1998.

Pavlov, I. P. (1897/1902).THE WORK OF THE DIGESTIVE GLANDS. London: Griffin.

Pavlov, I. P. (1928). LECTURES ON CONDITIONED  REFLEXES . (Translated by W.H. Gantt) London: Allen and Unwin.

Pavlov, I. P. (1955). SELECTED WORKS. Foreign Languages Publishing House.