Fé na verdade – Parte 2

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A investigação reflexiva final sobre a investigação ocorre no ramo da filosofia conhecido como epistemologia – A teoria do conhecimento. Ao concordar que a verdade é um conceito muito importante, os epistemólogos tentaram dizer exatamente o que é a verdade — sem se despistarem. Pois as controvérsias existentes e podem criaram um efeito nocivo, uma distorção que muitas vezes conduz a interpretações erradas.  Descobrir o que é verdade acerca da verdade acaba por ser uma tarefa árdua, uma tarefa na qual as definições e as teorias que parecem à primeira vista inocentes conduzem a complicações que rapidamente fazem o teórico enredar-se em doutrinas duvidosas. Nossa amiga, a verdade, tende a se transformar em Verdade – com uma V maiúscula -, um conceito inflacionado de verdade que de fato não pode ser defendido.

*Artigo versionado e adaptado de Faith in the Truth de Daniel C. Dannet

Epistemologia: tentar dizer a verdade sobre a verdade

Aqui está apenas um dos caminhos que leva à dificuldade: suponha que o conhecimento não consiste em nada senão em verdadeiras proposições acreditadas com justificação.E então suponha que as proposições verdadeiras, ao contrário das proposições falsas, expressam fatos. Quais são os fatos? Quantos fatos existem? exemplo:

Tom, Dick e Harry estão sentados numa sala. Eis um fato. Mas para além de Tom, Dick e Harry, da sala onde estão sentados e do que lhes serve de assento, parece que temos um infinidade de outros fatos: Dick não está de pé, não existe um cavalo o qual possa ser montado por Tom, e assim por diante, ad infinitum. Precisaremos realmente admitir uma infinidade de outros fatos juntamente com o pouquíssimo equipamento deste pequeno mundo?

Havia fatos antes de haver um fato Ou são mais ou menos como frases verdadeiras (de inglês, francês, latim, etc.), cuja existência teve que esperar a criação de linguagens humanas? Os fatos são independentes da mente daqueles que acreditam nas proposições que os expressam? As verdades correspondem aos fatos? A que correspondem então as verdades da matemática, se é que correspondem a algo? As categorias começam a multiplicar-se, não emergindo nenhuma teoria unificada, óbvia e consensual sobre a verdade. Os céticos, vendo as armadilhas que parecem rodear qualquer versão da verdade, absoluta ou transcendental, argumentam a favor de versões mais moderadas, mas os seus adversários contra-argumentam, mostrando as imperfeições das tentativas rivais de chegar a uma teoria aceitável. Reina a controvérsia sem fim.

Essa investigação modesta, porém por vezes brilhante, do próprio significado da palavra “verdade” tem tido algumas consequências maliciosas. Algumas pessoas pensaram que os argumentos filosóficos que mostram a situação de desesperanças das doutrinas inflacionadas da verdade mostraram que, na realidade, a própria verdade não era algo digno de apreço ou sequer passível de ser alcançado. “Saim dessa”,eles parecem estar dizendo. A verdade é um ideal inalcançável e insensato. Aqueles que buscam uma doutrina da verdade aceitável e defensável parecem estar se agarrando  a um credo ultrapassado, dando crédito a uma religião que não conseguem fundamentar pelos métodos da própria ciência. A epistemologia começa a parecer-se com um jogo de idiotas —Mas apenas porque os observadores estão esquecendo todos os pontos sobre a verdade que ambos os lados concordam. Os efeitos dessa visão distorcida podem ser perturbadores.

Quando eu era um jovem professor de filosofia, eu recebi uma visita de um colega do Departamento de Literatura Comparada, um eminente e elegante teórico literário, que queria alguma ajuda de mim. Fiquei lisonjeado ao ser perguntado, e fiz o meu melhor para obrigar, mas a deriva de suas perguntas sobre vários tópicos filosóficos foi estranhamente perplexo para mim. Por um bom tempo estávamos chegando a lugar nenhum, até que finalmente ele conseguiu esclarecer para mim os motivos. Ele queria “uma epistemologia”, afirmou. Uma epistemologia. Todos os teóricos literários dignos desse nome tinham, ao que parece, de exibir uma epistemologia naquela temporada, sem a qual ele se sentiriam “vazios”, de maneira que tinha vindo ter comigo em busca de uma epistemologia que pudesse usar — ele tinha a certeza que isso estava na moda e queria por isso o dernier cri em epistemologia. Não lhe interessava que fosse sólida, defensável, nem (como se poderia muito bem dizer) verdadeira; só tinha de ser nova e diferente e com estilo. Usa os acessórios certos, meu caro amigo, senão ninguém vai reparar em ti na festa.

Nesse momento percebi que existia entre nós um abismo que até àquele momento não tinha claramente compreendido. Primeiro pensei tratar-se unicamente do abismo entre a seriedade e a futilidade. Mas a minha vaga inicial de orgulho na minha própria integridade era, de fato, uma reação ingênua. Meu sentimento de indignação, minha sensação de que meu tempo tinha sido desperdiçado pelo bizarro projeto desse homem, era a seu modo tão pouco sofisticado quanto a reação do espectador de teatro pela primeira vez que pula no palco para proteger a heroína do vilão. – Você não entende? Perguntamos incrédulos. “É fazer acreditar, é arte, não é suposto ser tomado literalmente!” Colocado nesse contexto, talvez a busca desse homem não fosse tão desonrosa, afinal. Eu não teria ficado ofendido, se um colega do Departamento de Drama tivesse chegado e perguntado se poderia me emprestar alguns metros de meus livros para colocar nas prateleiras do set para a produção da peça de Tom Stoppard, Jumpers. E se houvesse alguma coisa errada em equipar este sujeito com um um conjunto de doutrinas epistemológicas ultrajantes com que ele poderia se animar ou confundir seus colegas?

O que seria errado, uma vez que ele não se dava conta do abismo, e nem sequer reconhecia a existência dele, seria o fato de a minha concordância com a sua brincadeira consumista e contribuir para o aviltamento de um bem precioso e para a erosão de uma distinção valiosa. Muitas pessoas, incluindo espectadores e participantes, não vêem esse abismo, ou negam ativamente sua existência, e é aí que reside o problema. O fato triste é que em alguns círculos intelectuais, habitados por alguns de nossos pensadores mais avançados nas artes e humanidades, esta atitude passa como uma apreciação sofisticada da futilidade da prova e da relatividade de todas as reivindicações do conhecimento. Na verdade, esta opinião, longe de ser sofisticada, é o cúmulo da ingenuidade inconsciente, só possível graças à ignorância grosseira dos métodos já demonstrados de procura científica da verdade, assim como do seu poder. Como muitos outros ingênuos, estes pensadores, ao refletirem na manifesta insuficiência dos seus métodos de procura da verdade para atingir resultados estáveis e valiosos, generalizam inocentemente a partir dos seus próprios casos, concluindo que mais ninguém sabe como descobrir a verdade.

Entre os que contribuem para este problema está, lamento dizê-lo, um anterior orador nas Conferências da Amnistia de Oxford, o meu bom amigo Dick Rorty. Rorty e eu temos vindo a discordar construtivamente desde há mais de um quarto de século. Penso que cada um de nós ensinou muito ao outro, através do processo recíproco de polir as nossas discordâncias mútuas. Não há outro filósofo contemporâneo com quem tenha aprendido mais. Rorty abriu os horizontes da filosofia contemporânea, mostrando de forma perspicaz a nós, filósofos, muito acerca do modo como os nossos próprios projetos têm resultado dos projetos filosóficos do passado distante e recente, ao mesmo tempo em que corajosamente descreve e prescreve rumos futuros. Mas não concordamos de maneira nenhuma — por enquanto — no que respeita à sua tentativa, ao longo dos anos, de mostrar que os debates dos filósofos acerca da Verdade e da Realidade eliminam de fato o abismo, permitem de fato a derrapagem para uma forma de relativismo. No fim de contas, diz-nos Rorty, tudo são apenas “conversas”, restando apenas bases políticas ou históricas ou estéticas para assumir um ou outro papel numa conversa que continua.

Rorty tem tentado muitas vezes fazer-me alinhar na sua campanha, declarando poder encontrar na minha própria obra um ou outro insight explosivo que o ajudaria no seu projeto de destruir o ilusório edifício da objetividade. A passagem com que termino o meu livro Consciousness Explained (1991) é uma das suas favoritas:

Trata-se apenas de uma guerra de metáforas, poderá dizer-se — mas as metáforas não são “apenas” metáforas; as metáforas são instrumentos do pensamento. Ninguém pode pensar acerca da consciência sem instrumentos, por isso é importante equiparmo-nos com os melhores instrumentos possíveis. Repare-se no que construímos com os nossos instrumentos. Poderíamos nós imaginar tudo isto sem eles? [pág. 455]

Gostaria”, afirma Rorty, “que ele tivesse dado mais um passo e que tivesse acrescentado que esses instrumentos são tudo o que a investigação pode alguma vez fornecer, porque a investigação nunca é ‘pura’ no sentido do ‘projeto de investigação pura’ de [Bernard] Williams. A investigação é sempre uma questão de alcançar algo que queremos.” (“Holism, Intrinsicality, Transcendence”, in Dahlbom, org., Dennett and his Critics. 1993) Mas eu nunca daria tal passo, pois apesar de as metáforas serem de fato instrumentos de pensamento insubstituíveis, não são os únicos instrumentos insubstituíveis. Os microscópios e a matemática e os scanners de IMR (imagem por ressonância magnética) são alguns dos outros. Sim, toda a investigação é uma questão de alcançar o que queremos: a verdade acerca de algo que nos interessa, se as coisas forem como devem ser.

Quando os filósofos discutem acerca da verdade estão a discutir acerca de como não inflacionar a verdade acerca da verdade, transformando-a na Verdade acerca da Verdade — uma doutrina absolutista que faça exigências indefensáveis aos nossos sistemas conceituais. A este respeito, a discussão é análoga aos debates sobre a realidade do tempo, por exemplo, ou sobre a realidade do passado. Existem investigações filosóficas sofisticadas e meritórias sobre a questão de saber se, se formos precisos, o passado será real. As opiniões dividem-se, mas estará enganado quem pensar que se rejeitam afirmações como as seguintes:

A vida surgiu neste planeta há mais de três mil milhões de anos.

O Holocausto aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial.

Jack Ruby disparou a matar sobre Lee Harvey Oswald às 11:21 da manhã, hora de Dallas, no dia 24 de Novembro de 1963.

Estas são verdades sobre acontecimentos que ocorreram de fato. As suas negações são falsidades. Nenhum filósofo em seu perfeito juízo alguma vez pensou o contrário, apesar de no calor da batalha terem por vezes afirmado coisas que poderiam interpretar-se dessa maneira.

Richard Rorty merece seu grande e fascinado público nas artes e humanidades e nas ciências sociais “humanistas”, mas quando seus leitores o interpretam com entusiasmo como incentivando seu ceticismo pós-modernista sobre a verdade, eles trilham caminhos que ele próprio se absteve de viajar. Quando eu o pressiono sobre esses pontos, ele admite que existe de fato um conceito útil de verdade que sobrevive intacto depois que todas as objeções filosóficas corrosivas foram devidamente inseridas. Esse modesto conceito de verdade, Rorty reconhece, tem seus usos: quando queremos comparar dois mapas do campo para confiabilidade, por exemplo, ou quando a questão é se o acusado cometeu ou não o crime como acusado.

Assim, até mesmo Richard Rorty reconhece a lacuna e a importância dela, entre a realidade e a aparência, entre os exercícios dramáticos que podem entreter-nos sem pretenderem dizer a verdade, e aqueles que procuram, e muitas vezes conseguem, a verdade. Rorty chama a isto uma concepção “vegetariana” da verdade. Muito bem, sejamos então todos vegetarianos acerca da verdade. Em qualquer caso, os cientistas nunca quiseram ser uns carnívoros radicais.

Leia também Fé na verdade – Parte 1

 

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Referências e leituras

Akins, 1990, “Science and Our Inner Lives: Birds of Prey, Bats, and the Common Featherless Biped,” in M. Bekoff and D. Jamieson, eds., Interpretation and Explanation in the Study of Animal Behavior, Vol 1, Boulder, CO: Westview, pp.414-427.

Dawkins, Richard and Krebs, John, 1978, “Animal Signals: Information or Manipulation,” in J. R. Krebs and N. B. Davies, eds., Behavioral Ecology, Oxford: Blackwell Scientific Publications, pp.282-309.

Dennett, Daniel, 1991, Consciousness Explained, New York and Boston: Little, Brown; London: Allen Lane.

Feynman, Richard, 1985, QED: The Strange Theory of Light and Matter, Princeton Univ. Press.

Goldschmidt, Tijs, 1996, Darwin’s Dreampond, Cambridge, MA: MIT Press.

Hauser, Marc, 1996, The Evolution of Communication, Cambridge, MA: MIT Press.

Milton, Katharine, 1992, “Civilization and Its Discontents,” Natural History, March, 1992, pp.37-42.

Rorty, Richard, 1993, “Holism, Intrinsicality, Transcendence,” in Bo Dahlbom, ed., Dennett and his Critics, Oxford: Blackwell.