Conspirações, aliens e a Navalha de Ockham

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Quantas vezes nós olhamos para o céu estrelados e simplesmente contemplamos? Eu mesmo, morador de cidade, faz alguns anos que não observo, mas não é por não gostar, mas pela falta de oportunidade mesmo. Durante minhas participações em grupos de astrônomos amadores, ou mesmo, durante algumas conversas recorrentes sobre espaço, vez ou outra surgem pessoas comentando histórias sobre observações não identificadas. Algo como a historinha abaixo ilustra:

Já era bem tarde da noite e todos já tinham ido dormi. Jonathan saiu a varanda para fumar o último cigarro. Foi quando avistou uma luz brilhante bem longe no céu. A luz, fazia movimentos não uniformes, subia e descia. Jonathan pegou seu celular e filmou tudo. Para ele, talvez essa seja a prova definitiva da presença de discos voadores. No dia seguinte mostrou a todos e explicou o que havia acontecido. A notícia logo se espalhou e várias teorias surgiam para explicar a presença do objeto, até que um fato, dias depois veio à tona, revelando o que era: Um drone, que estava realizando filmagem noturnas da cidade naquele dia. 

De fato, a preswilliam_of_ockhamença de um drone voando a noite é muito mais crível em nossa realidade do que uma disco voador. A simplificação do problema, ou a utilização da hipótese mais simples é chamada de Navalha de Ockhan. A ideia é um princípio de resolução de problemas que estabelece que não se deve agregar hipóteses desnecessárias a uma teoria, ou seja, pluralidades não devem ser acrescentadas sem a necessidade. Essas ideias, de simplificar e descomplicar explicações, é bem antiga, vêm lá do século XIV e é atribuída ao frade franciscano da vila de Ockham, William Ockham (1285-1349). Ele foi um teólogo controverso e um dos mais influentes filósofos de sua época. Seus ensinamentos estavam entre os primeiros a quebrar com as filosofias medievais que o precederam. William era contra a prática, comum da época, de descrever a natureza se utilizando de abstrações que não eram testáveis ou que eram consideradas como fisicamente tão reais como qualquer outra coisa encontrada no mundo. Seu princípio* afirmava que:

  1.  Entidades não devem se multiplicar desnecessariamente;
  2.  A pluralidade não deve ser introduzida sem necessidade;

William utilizou-se desses princípios para justificar muitas conclusões, incluindo o argumento de que “a existência de Deus não pode ser deduzida somente através da razão.” Essa última não o tornou muito popular para a igreja católica e o papa.

Na ciência, a navalha de Ockham é usada, muitas vezes intuitivamente, como uma técnica para orientar os cientistas no desenvolvimento de modelos teóricos mais preciso e não de forma arbitrários. No método científico, a navalha de Ockham não é considerado um princípio irrefutável da lógica ou de um resultado científico. A preferência pela escolha de um modelo mais simples é baseada no critério da falseabilidade (leia mais sobre falseabilidade aqui: Devaneios dos Limites científicos ).

Para cada explicação aceita de um fenômeno, pode haver um número extremamente grande de alternativas possíveis e mais complexas pois sempre se torna mais complicado de se testar a veracidade dessas afirmações. Assim, hipótese mais simples são preferíveis quando comparadas.

Vamos pensar num exemplo matemático, dois pontos num gráfico. A forma mais simples de ligar esses pontos é por uma equação de reta, porém existem outras possibilidades muito mais complicadas que ligam perfeitamente esses pontos. Todas as equações e possibilidades são perfeitamente possíveis, porém, depende da informação ou dados disponíveis. Na ausência de detalhes do problema, a equação da reta é preferível segundo o princípio. Diariamente usamos esse princípio sem nos dá conta. Por exemplo, qual o trajeto mais rápido entre sua casa e o trabalho? Muito intuitivamente aplicamos a navalha na escolha do transporte, já que helicópteros estão longe da realidade do dia-a-dia.

A Navalha de Ockham aponta a hipótese de maior probabilidade entre duas teorias, indicando que cada hipótese extra, aumenta a complexidade do problema. Suponha que uma teoria T1 seja correta. Ela é formada com N hipóteses (h1, h2, h3…hn) onde todas sejam necessárias para que a teoria não tenha furos. Agora vamos imaginar que exista outra explicação para o mesmo problema, uma outra teoria, T2, contendo o mesmo número de explicações, porém esta é acrescida de uma hipótese extra, que chamaremos de e1. Portanto.

T1=(h1, h2, h3…hn)

T2=(h1, h2, h3…hn, e1.)

Agora, se temos todas as condições nas quais as hipóteses de T1 sejam satisfeitas, então a teoria T1 deverá nos dar as predições corretas. A teoria T2, por sua vez, só dará o resultado correto se a hipótese “E0” for verificada. Mas como, por definição, “e0” é uma hipótese desnecessária, já que T1 consegue explicar perfeitamente sem esta condição. A teoria T2 poderá dar um resultado falso quando deveria dar um resultado verdadeiro, pois depende do valor da hipótese desnecessária “e0”.

Assim, hipóteses desnecessárias fazem com que uma teoria poderia ser correta, torne-se falsa. Desta forma, pode-se afirmar que explicações que respeitem a Navalha de occam tem maior probabilidade de serem verdadeiras do que aquelas que não satisfazem. A Lâmina somente identifica aquelas hipóteses que são logicamente consideradas e avaliadas em primeiro lugar, se não fosse esse caso, poderia ser considerada como lei, o que não é o caso.

Na física, utilizamos a lâmina de Occam para remover conceitos metafísicos das possíveis explicações. Um grande exemplo disso, está na teoria de Einstein sobre a relatividade especial quando comparada a teoria de Lorentz, na qual uma régua diminui o tamanho e um relógio corre mais devagar quando em movimento dentro do éter (substancia que antes se acreditava que preenchia o espaço e ser o meio o qual a luz e o tempo se movimentavam).  

As equações de Einstein para transformar o espaço-tempo são as mesmas que as equações de Lorentz para transformar réguas (espaço) e relógios (tempo), mas Einstein e Poincaré reconheceram que o éter não podia ser detectado de acordo com as equações de Lorentz e Maxwell, ou seja, o éter era algo imaginável. Assim, foi eliminado do problema (teve a experiência de Michelson-Morley que mostrou isso). Nesse caso o éter se comportou exatamente como a hipótese e0 do exemplo acima, sendo, portanto, desnecessário. O princípio também foi usado para justificar a incerteza.de Heisenberg na mecânica quântica.

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Portal de stargate.

Paranormalidade e outros devaneios

Todas as alegações de fenômenos paranormais têm algo em comum: entre duas hipóteses que explicam igualmente os fatos “paranormais” observados. Uma baseada em conhecimento bem fundamentado pela ciência e outra apela envolvendo seres de outros planetas, espíritos, anjos e demônios, magias e forças desconhecidas. Por alguns motivos, muitos preferem aceitar a segunda, mais complicada, do que a primeira, mais simples.

Aliens

Um exemplo, dos mais hilários, muitos ainda crêem que os círculos nas plantações inglesas (crop circles) têm sido feitos por alienígenas interessados em se comunicar conosco o qual já escrevi sobre em Uma conversa sobre ETs .Em 2001, foi encontrado na Inglaterra um círculo que reproduzia a mensagem enviada pelo radiotelescópio de Arecibo ao espaço em 1974 como parte do programa SETI (Search for Extraterrestrian Intelligence).

A mensagem reproduzida no círculo era idêntica à original, exceto que os dados relativos à raça humana, como o DNA e uma figura humana, tinham sido trocados por dados e uma figura supostamente alienígenas. Enquanto os ufólogos ficaram exultantes, os cientistas do programa SETI disseram que o tempo necessário para que o sinal enviado em 1974 chegasse à estrela mais próxima (na direção em que o sinal foi enviado) mais o tempo que uma suposta raça inteligente levaria para vir desta estrela até a Terra seria muito maior do que o tempo decorrido desde a transmissão. Ou seja, mesmo que exista uma raça extraterrestre inteligente (o que é justamente o que quer descobrir o projeto SETI), ainda é cedo para que respondam a transmissão iniciada em 74. 

Seria mais fácil, disseram os cientistas, aceitar o fato de que aquele círculo, como outros, havia sido feito por pessoas em busca de aventura ou reconhecimento. Mas então os ufólogos replicaram, dizendo que isto é apenas uma prova de que alienígenas já estão entre nós há muito tempo, provavelmente deste o início da vida humana.

Resumindo: empurrados pela lógica através do tortuoso pensamento ufológico, a “hipótese alien” nos deixou nas mãos, não apenas alienígenas casuais, mas alienígenas vivendo entre nós, que alteraram geneticamente a vida na Terra para que nos desenvolvemos à sua imagem e semelhança, e mesmo com tanta tecnologia e disposição se comunicam com a raça humana através de códigos em plantações? Parece haver uma certa incoerência não?

Outro exemplo, absurdo é a hipótese de que as pirâmides foram projetadas por aliens. Porém, se investigamos uma pouco a fundo a nossa própria história e suas relações de trabalho, veremos que carregar pedras de milhares de quilos não é algo tão complexo quando se tem milhares de homens para empurrar e carregar, mesmo que a base de chicotadas. O projeto é demorado? bastante, cerca de 30-40 anos e nem sempre saem perfeitas, umas saíram tortas e foram abandonadas, possivelmente o projetista não deva ter tido um final feliz. Além disso, é muito mais intrigante é achar que os egípcios eram burros ou não capaz de construir algo daquela magnitude, talvez seja um pouco do exercício do preconceito contra outras civilizações, quando se acredita que somente seres de outro mundo poderiam construir pirâmides, muito mais do que a pratica da navalha de Occan.

Conspirações

Há alguns casos clássicos de devaneios e teorias da conspiração onde o pensamento lógico do frade passou longe. No assassinato do ex-presidente dos EUA John Kennedy é um exemplo de como as pessoas facilmente são seduzidas por explicações complexas e pouco simples. Cinco décadas depois, a morte de Kennedy continua sendo alvo de dezenas de teorias conspiratórias que descartam a explicação mais óbvia, segundo as evidências colhidas na investigação policial – a de que um maluco, Lee Oswald, sozinho, matou o presidente, o que é bem possível pela facilidade de se adquirir armas naquele país. Ou mesmo dos atentados terroristas de 11 de setembro, mesmo com a confirmação dos terroristas, caixa-preta entre outras informações, teorias da conspiração afirmam envolvimento da CIA e outros departamentos o qual não sei a sigla, algumas teorias inclusive sendo propagadas pelo “documentário” Zeitgeist, o qual há uma infinidade de erros complicando a seriedade do filme.

Embora as crenças conspiratórias possam ser vagamente baseadas em uma análise racional de evidências, na maioria das vezes elas não são. Nossa espécie é poderosa em encontrar padrões e fazer inferências causais.  Às vezes, porém, vemos padrões e conexões causais que não existem, especialmente quando sentimos que os eventos estão além do nosso controle.

A atratividade das teorias da conspiração surgem de uma série de preconceitos cognitivos o que é forma como processamos as informações. O “viés de confirmação” é o maior e mais penetrante viés cognitivo para as crenças em conspiração. Nós todos temos uma inclinação natural em dar um peso maior às evidências que suportam algo já acreditamos e ignorar evidências contrárias.  Os eventos do mundo real que muitas vezes se tornam o tema das teorias da conspiração tendem a ser intrinsecamente complexos e pouco claro, de outra forma, muitas hipóteses que não se sustentam.

Os primeiros relatos podem conter erros, contradições e ambiguidades, e aqueles que desejam encontrar evidências de um encobrimento se concentrarão em tais inconsistências para reforçar suas reivindicações. Um exemplo bem escrachado disso é da senhora que viu a invasão comunista na bandeira brasileira em uma homenagem do centenário da imigração japonesa ao Brasil. Seja qual for a relação lógica que a senhora fez para achar aquilo.

No Brasil, algumas mortes de políticos sempre causam um grande apelo a teorias conspiratória e a tendência a acreditarmos em nossas crenças pessoais partidária afloram. Foi assim com Getúlio Vargas, com Ulisses Guimarães, com Tancredo Neves, Eduardo Campos e mais recentemente o ministro STF Teori Zavascki.

Aqui o acesso às armas de fogo é restrito, ainda bem, pois se a facilidade fosse a mesma do país do Norte, possivelmente teríamos um registro de mortes muito mais assustadora do que temos hoje. Porém temos uma enorme dificuldade de seguir normas de segurança, seja pela urgência em tudo, seja pela nossa autoconfiança em que nada acontecerá. Quem já fez um curso ou conhece um pouco de Segurança, Meio ambiente e Saúde, entende bem como é o dia a dia nas diversas empresas. O quanto os órgãos de fiscalização devem ficar em cima para que estas normas sejam seguidas. Porém para humanos fora desta realidade isto também é perfeitamente observável.

Lembro de quando morava no rio de janeiro e utilizava o serviço do metro, constantemente eu ouvia uma voz robótica chamando a atenção do passageiro para ficar atrás da linha de segurança. Porém algumas vezes acontecia de eu avistar o passageiro além da linha de segurança e não ouvir a voz robótica. Felizmente nunca vi um acidente acontecer. Porém nem sempre temos uma voz racional e robótica (as vezes sexy) que alerte sobre nossos erros de procedimentos de segurança.

Agora fico imaginando uma situação crítica, onde decisões devem ser tomadas o mais rápido possível. Pequenas falhas, humanas ou técnicas, entre outras variáveis factuais que podem ser determinantes para um acidente aéreo. Porém, para muitos, a queda de um avião aproximadamente 2 km do aeroporto é quase uma prova irrefutável que existiam pessoas interessados em derrubar a aeronave ignorando um conjunto de evidências que nem foram coletadas ou avaliadas.

Note que para um acidente, possivelmente as primeiras hipóteses a serem avaliadas são a manutenção da aeronave, as condições do aeroporto, condições do tempo a saúde do piloto entre outras. A navalha não aponta que a solução mais simples é verdadeira, ou se há uma resposta, apenas guia o investigador a pensar hipóteses mais simples antes de idéias mais complexas, pois do contrário, conclusões precipitadas ou hipóteses não avaliadas levariam a tantas perguntas e questionamentos que poderia até esquecer o problema inicial.

*Algumas vezes isso é citado em sua forma original no latim: “Pluralitas non est ponenda sine neccesitate”,“Frustra fit per plura quod potest fieri per pauciora”,“Entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem”

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Referências e leituras

projeto ockham : Guilherme de Ockham

scientific american : why do some people believe in conspiracy theories

yourdictionary : examples of occams razor

Stoa.usp : A Navalha de Ocam -João Carlos Holland de Barcellos

University california riverside: Phil Gibbs 1996. What is Occam’s Razor?

Coisas da minha cabeça