Impacto na sobrevivência ao câncer pelos tratamentos alternativos

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A demora em um diagnostico ou mesmo a recusa de tratamentos recomendados contra câncer pela livre opção de fazer uso de tratamentos alternativos podem trazer graves implicações na sobrevivência de pacientes. Não são poucas as alternativas curandeirísticas que prometem reverter a situação da doença. Uma busca rápida no Google você encontrará deste chá de ervas, vitaminas ou mesmo pílulas milagrosas que prometem acabar com as células cancerígenas. Aqui mesmo no Brasil, há 2 anos tivemos o caso da pílula de fosfoetanolamina o qual já descrevi aqui. A grande maioria destes tratamentos  médicos alternativos não possuem um embasamento técnico e portanto não podem ser consideradas medicina.

A medicina moderna, assim como a própria ciência, são moldadas pelo método científico, justamente para que se possa avaliar corretamente práticas que são eficazes de outras que funcionam simplesmente como placebo. Dados avaliando o uso e a eficácia de medicina alternativa são escassos, quando não existência da hesitação do paciente em divulgar a terapia ao médico[1,2].

Um estudo recente, publicado no  Jornal Of National institute of Cancer mostrou que pacientes que optam por não fazer o tratamento médico recomendado (quimioterapia, radioterapia, cirurgia, etc.) para seguir apenas tratamentos não convencionais (isto é, para os quais não há eficácia cientificamente comprovada) tem chances maiores de morrer do que aqueles que seguem tratamentos convencionais.

O artigo utilizou a base de dados nacional de câncer(EUA) para quatro tipo de câncer mais comum( mama, próstata, pulmão e cólon)  a fim de comparar a sobrevivência entre o tratamento convencional(TC)  e o alternativo(TA). Os pacientes que foram submetidos ao tratamento MA foram aqueles identificados como tratados e administrados por pessoal não médico e que não receberam nenhum tratamento convencional. No estudo foram excluídos pacientes com Tumor metastático no diagnóstico, no estágio IV, recebendo tratamentos paliativos ou estado de tratamento desconhecido.

No total, foram identificados 280 pacientes usando TA.  Detalhes da distribuição entre pacientes desses pacientes podem ser consultadas aqui. Uma característica observada notavelmente, foi que os pacientes nesse grupo  eram mais propensos a serem mais jovens, a serem do sexo  feminino, a terem uma menor classificação de comorbidade de Charlson-Deyo (CDCS)* além de terem maior estágio de câncer, maior renda e melhor educação. Detalhes estatísticos da análise multivariada para controlar os fatores clínicos e demográfico dos pacientes também podem ser observados na tabela online)

A comparação foi realizada com 560 pacientes que receberam TC com base em tipo de câncer, idade, estágio de grupo clínico, tipo de seguro, raça e ano de diagnóstico; Assim, um total de 840 pacientes foram investigados. Não houve diferenças estatísticamente significativas nas características correspondentes. Na análise da sobrevivência univariada combinada, os tratamentos alternativos foram associados a uma pior taxa de sobrevivência em cinco anos 55.7% contra 78,3 tratamento convencional. Para casos específicos, tivemos Mama 58.1%(TA) x  68.5% (TA), Pulmão 19%(TA) x 41,3%(TC), Cólon 32,7%(TA) x 79,9%(TC), próstata 86,2(TA) x 91.5%(TC). Detalhes pode ser observados abaixo.

Sobrevivência geral de pacientes que receberam tratamentos alternativos (linhas sólidas) x tratamento convencional de câncer (linhas tracejadas). Em (A) todos os pacientes, (B) mama, (C) próstata, (D) pulmão e (E) câncer cólon.

 

Os pacientes que  escolheram TA para  câncer curável foram raros e tiveram uma taxa sobrevivência pior. Levando em conta o controle de fatores sociodemográficos e clínicos, a  diferença foi maior para o câncer de mama pois as mulheres que usaram MA como tratamento inicial sem TC apresentaram um risco de morte em cinco vezes. Os pacientes com câncer de cólon apresentaram um aumento no risco de morte em 4 vezes, enquanto que os com câncer pulmonar 2 vezes maior.

Notavelmente, não houve associação estatisticamente significante entre o uso de MA e a sobrevida para pacientes com câncer de próstata. Isso não é inesperado, dada a longa história natural do câncer de próstata e o curto acompanhamento médio neste estudo. Entre a população estudada, aproximadamente 74,6% dos pacientes com câncer de próstata apresentaram doença de risco baixo a intermediário, um subgrupo com evidência de nível 1 que não mostra diferença no risco de morte. ao comparar a observação com cirurgia ou radioterapia e terapia hormonal aos 10 anos

Evidentemente o câncer não tem cura definitiva. Ainda que em alguns muitos caso hoje conseguimos reverter com grande taxa de sucesso, são muitas variáveis envolvidas e estudadas. No estudo isolou parte destas variáveis, apenas para mostrar em números a taxa de sobrevivência para tratamentos alternativos isolados x tratamentos convencionais.
Ainda que você, mesmo diante dos resultados acima, questione  e tenha crença nas terapias alternativas é válido o seguinte raciocínio resumido numa simples equação: 
A+B > A, onde é a terapia convencional e uma terapia alternativa. Somadas sempre podem ter um efeito maior que isoladas, mesmo que seja objetivamente inútil ao tratamento, porém o efeito placebo(leia aqui sobre efeito placebo), o conforto psicológico, podem trazer alguns benefícios, como próprio alívio de dor.

Um ponto aqui é que não podemos dá um peso maior as terapias alternativas, ainda mais quando muitas dessas negam os próprios tratamentos convencionais. Este fato pode fazer com que muito pacientes desistam do procedimento padrão, inclusive em casos com alta taxa de reversão. A morte recente do jornalista e apresentador Marcelo Rezende é mais um caso, que optou por tratamentos alternativos, alguns destes difundido por um médico famoso, o qual não trabalha ou faz pesquisa na área oncológica.Qualquer paciente é livre em sua escolha de tratamento, deste que este esteja ciente dos riscos e das consequências, assim como da não comprovação científica da enorme gama de tratamentos alternativos existentes.

Até o próximo texto

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Leituras e Referências

Principal artigo comentando: Skyler Bryce Johnson, Cary Philip Gross, Henry S. Park, and James B. Yu Use of alternative medicine for canccer and its impact on survival. Journal of Clinical Oncology 2017 35:15_suppl, e18175-e18175  

[1]Davis EL, Oh B, Butow PN, et al. Cancer patient disclosure and patient-doctor communication of complementary and alternative medicine use: A systematic review. Oncologist. 2012;17(11):1475–1481.

[2] Richardson MA, Sanders T, Palmer JL, et al. Complementary/alternative medicine use in a comprehensive cancer center and the implications for oncology. J Clin Oncol. 2000;18(13):2505–2514.

skepdic.com: natural cures